domingo, 17 de julho de 2011

O amor e a verdade.

Uma fita k-7 veio parar nas minhas mãos há muitas anos atrás... tinha o seguinte discurso:

'Perdoe e esqueça. Quando você enterra um cão raivoso, nunca deixa a cauda dele de fora' (Charles H. Spurgeon).

Sua vida só terá valido a pena ser vivida, se a maior herança que você deixar for a doçura.

Hoje ocorre na cabeça dos cristãos, uma dialéctica entre a verdade, a fé e o amor, gerando uma tensão. Muitas vezes não sabemos qual é o mais importante. Desde a reforma protestante a verdade tem alcançado em nossas igrejas uma primazia sobre o amor. Mas a praxe fundamental da religião é o amor, e não a verdade. Sei que o amor sem a verdade tende a degenerar em libertinagem. Sei que o amor sem fé degenera em imobilismo. Mas o amor deve vir primeiro. E a razão pela qual temos um Evangelho que à antipático a essa geração é porque temos dado primazia à verdade, esquecendo-nos do amor.

A verdade sem o amor tende a discriminar, pois a verdade só vê o certo e o errado, o afinado e o desafinado, o bem e o mal, o falso e o verdadeiro. A verdade discute, julga e valoriza, mas não tem espaço para o afago, para a misericórdia, para a longanimidade, para o perdão. Preocupa-me que sem a concretização prática desse amor estejamos mutilando pelo coração a própria mensagem de Jesus, e desnaturando a missão precípua da igreja. Preocupa-me às vezes ver as grandes denominações reunidas para discutir a cristologia, a soteriologia, a bibliologia, a escatologia, mas nunca para codificar e sistematizar a prática do amor. No entanto, a única mensagem que realmente pode transformar o mundo é a mensagem do amor de Jesus Cristo, não apenas proclamada, mas também vivida pelos seus discípulos.

O cristianismo moderno tem sido reduzido a uma simples doutrina, pois proclama que importa mais saber do que viver. Porém, o que seria do cristianismo sem o amor, sem esse elemento que infunde nas pessoas esperança e alegria? A igreja do século XXI pode ser organizada, disciplinada, obediente, mas Jesus não nos chamou para sermos uma colmeia, um exército ou uma academia, ele nos chamou para sermos um refúgio de amor a uma sociedade carente, pobre e miserável.

Em João 1:14 a Bíblia fala assim a respeito de Jesus: “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, a glória como do Unigénito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade”. Atente que aqui a plenitude do Filho é antes cheia de graça, e depois cheia de verdade. Ele foi cheio de graça e cheio de verdade. A graça vem antes da verdade porque Jesus estava disposto não só a se contradizer, mas também a contradizer a lei, os costumes e as pessoas ao seu redor, em nome do amor.

Sem amor, a nossa fé é morta, e os dons espirituais ineficazes. O dom de línguas se torna como um címbalo que tine, o dom de profecia transforma-se em necromancia, os dons de curar tornam-se em charlatanismo, os de discernimento de espírito tornam-se em adivinhação, e a operação de milagres se transforma em sensacionalismo. Sem amor a nossa tradição vira tradicionalismo, a nossa teologia vira dogmatismo, a nossa moral descamba para o pieguismo, e a nossa evangelização não passa de proselitismo.

E por que não amamos?

Primeiro, porque entendemos o amor erradamente. Amor para nós é um conceito. Fizemos dele apenas uma teologia a mais. Tentamos analisá-lo, estruturá-lo, colocá-lo em departamento. Mas amar é mais do que ficarmos brincando com conceitos que não trazem proveito nenhum.

Outro problema básico que temos com o amor é ambiental. Procuramos criar um ambiente com músicas suaves, o pregador convida os membros da congregação a se abraçarem uns aos outros e dizerem que se amam, quando na verdade um não está nem um pouco preocupado com o outro. Isso não é amor.

O terceiro problema do amor na igreja é ideológico. O nosso amor é confundido com filantropia assistencial barata. É no Natal arranjar um baú de roupa velha e distribuir nos orfanatos e nas creches. É ter um asilo com meia dúzia de velhinhas mal cuidadas e vangloriar-se pelo transbordamento de amor em sua igreja. É aquele tipo de serviço social que se desenvolveu durante a ditadura, serviço social assistencialista e barato, cujo patrono é Judas Iscariotes, que foi o que se preocupou com os pobres dessa maneira. Precisamos desenvolver amor em nossas igrejas não como uma assistência social barata e filantrópica, mas como uma nova pregação de justiça social. Precisamos ser desafiados a buscar nas estruturas iníquas e perversas uma mudança que altere a sorte de milhões de pessoas que sofrem ao nosso redor enquanto permanecemos encastelados em nosso próprio sistema que nos favorece e deixamos a sorte de nossa nação nas mãos de uma elite que controla e dá o tom político com o qual muitos de nós não concordamos.

Precisamos ser uma igreja do amor. A igreja não pode ser uma rodoviária, onde as pessoas entram e saem, e ninguém se dá conta. Somos família. Temos de chorar com os que choram, valorizar uns aos outros, não pelo que produzem, mas pelo que cada um é, e pelo que pode tornar-se em Cristo Jesus.

Isto caracteriza o corpo de Cristo: relacionamentos íntimos e achegados. O baptismo que mais precisamos hoje não é baptismo de poder, mas baptismo de amor. Quando a igreja for inundada pelo amor de Cristo, o poder do Espírito Santo fluirá de nossas vidas, e a terra se encherá da glória do Senhor.

Aprendi na minha adolescência uma música que diz: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Precisamos nos programar para fazer acontecer. Ajudar o próximo deve fazer parte de uma agenda bem programada em nossa vida, caso contrário nos perderemos na caminhada. Não existimos como igreja para servir de ama-seca de nós mesmos. Existimos para nos desafiar a cumprir o maior mandamento: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos. Se falharmos nisso, toda a lei e todos os profetas caem por água abaixo. Não existimos como igreja para massajarmos os egos uns dos outros, com troca de elogios vazios.

Que o amor concreto, sincero e verdadeiro torne visível e palpável o nosso discurso, e então, somente então, começaremos a alcançar a nossa geração.

Com sua habitual lucidez, C. S. Lewis pondera sobre o amor cristão:

Se tenho certeza de algo é que Seu ensino nunca foi projectado para confirmar minha preferência congénita por investimentos seguros e responsabilidades limitadas. (...)

Ame qualquer coisa, e certamente seu coração será vergado e possivelmente partido. Se você quer se assegurar de mantê-lo intacto, não o entregue para ninguém, nem mesmo para um animal. Envolva-o cuidadosamente com passatempos e um pouco de luxo; evite toda a complicação; encerre-o seguro no porta-jóias ou caixão do seu egoísmo. Mas nesse porta-jóias – seguro, escuro, imóvel, abafado – ele mudará. Não será partido; ficará inquebrantável, impenetrável, irredimível. A alternativa para a tragédia, ou pelo menos para o risco da tragédia, é a danação. O único lugar, fora do Céu, onde você pode estar perfeitamente protegido de todos os perigos e perturbações do amor é o Inferno.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Nascer...

Algumas pessoas não se mostram. Simplesmente nos obrigam a nos relacionarmos não com elas, mas com os sintomas delas. Assim, nossa vida gira em torno de um monte de arcabouços da personalidade do outro e não em torno da pessoa em si.
Vivemos caindo em ciladas e mais ciladas.
É como tentar ver o sol nascer. Imagine-se diante do mar observando o sol nascer... sai uma pontinha do sol... em todo o seu fulgor, metafóricamente falando, esta seria a pessoa que você está tentando ver, ou quem sabe, representa a sí próprio, e você está tentando se ver. E o sol está saindo... de repente... pássaros jogam sementes... e crescem árvores rapidamente... e o sol só pode ser visto entre as frestas das árvores...
Assim nos relacionamos com pessoas que ainda não nasceram para nós, e talvez ainda não tenham nascido para elas mesmas. Pensam que são algo, mas na verdade são apenas sintomas. sintomas ambulantes.
O cuimento. O inseguro. O medroso. O covarde. O mentiroso. o falso. O tarado. O que fala demais. O calado. O tímido. Nada disso é a pessoa. São meros personagens... a pessoa mesmo ainda não nasceu.
Somente após a retirada das árvores... que representam aqui o fruto das nossas experiências de vida. E os pássaros são pessoas, eventos... geradores de traumas ou condutas...
Somente após nos retirarmos para uma outra perspectiva, onde as árvores não sejam mais um obstáculo... somente após isto... é que veremos o horizonte... o sol nascendo...
O vislumbre de quem somos se dá quando nos despimos do nosso comportamento... pois não temos livre arbítrio... uma mentira que alguém inventou, e todos aceitaram sem questionar... temos um arbítrio sim... mas este... é servo... e não livre...
Somente Deus sabe quem somos. Ele esquadrinha o nosso coração.
E é por isso que somente n'Ele é que podemos renascer... e sermos nova criatura.
Eu quero me reacionar com pessoas sincerasde verdade, sinceras consigo mesmas. Verdadeiras e nuas de seus medos... dos trajes da imperfeição. Quero assim descobrir o amor verdadeiro e eterno nos olhos da amada... e não nos olhos da sua máscara social.
Eu quero nascer para a vida da liberdade em Cristo, o autor da minha vida e da minha fé!