domingo, 25 de abril de 2010

Treinamento de repetição.

E se um dia..... um demônio...... te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez, um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!"..... A pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?"..... Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela. - adaptado de: Friedrich Nietzsche ( A Gaia Ciência)

A escola não passa de um inferno disfarçado de céu. Lugar onde crianças são submetidas a um rígido treinamento: repetir. "A repetição é a mola mestra da aprendizagem." - ouvi esta frase numa aula de História da Arte ministrada pela digníssima Irmã Maria Hiltgardis no Colégio Maria Auxiliadora na década de 90. Dentro do contexto em que eu vivia e do modo como esta frase me foi apresentada, pareceu-me algo lindo. Mas agora, esta mesma frase, assume vestes terríveis.

Sofri dores insuportáveis no hospital durante minha rápida recuperação de uma apendisectomia, e afirmo categoricamente: viveria tudo novamente, apenas para estar onde estou agora, sem dor e vivo, ao lado da minha filha. Privações de dias sem comer e muitas horas sem beber. Sensação de impotência diante do destino. Restava-me aceitar o que foi imposto e lutar para cumprir a tarefa de voltar a viver.

Mas como suportar a dor de um emprego que não suportamos mais? Ou de um relacionamento que não nos traz mais prazer? Sentimos esta maldição da eterna repetição. Rotina de tortura. Cauterizadora de idéias e sentimentos nobres. Isto é o inferno na terra.

Inquietante assim é também a saudade. Ou a ausência que se faz eterna.

Devemos quebrar esta roda da escravidão, sair da sansara... atingir uma rota de fuga... sair pela tangente...

Uma frase de um filme do Goddard me agita os pensamentos... "Onde acaba a imagem que tenho de você?" Pensei: Limitamos a nossa visão e ou a expandimos?

Limitando, estamos fadados à repetição. Assim pretendem os namorados quando vivem de mimos diários impossíveis de serem mantidos na correria de uma vida matrimonial séria, postergando assim apenas o fim do relacionamento, sem saber. Limitam-se a verem apenas as coisas boas, e quando a ruim chegar, pode pegá-los desprevinidos.

Expandindo nossa visão, podemos ver coisas diferentes, e dependendo da nossa situação, tais visões podem ser melhores ou piores. Quem está no fundo do poço, talvez veja uma saída. Quem está enamorado e vê o futuro demasiadamente, acaba sozinho, pois excede em exigências e desconfianças.

Dizem, que só se dá valor àquilo que se perde. Deve-se tentar ver na saudade sentida todos os dias, o limite onde acaba a imagem que temos da pessoa amada. Permitindo assim surpreender-nos com o conhecimento de quão profundo pode ser este amor.

Queres viver todos os dias o mesmo que viveste hoje? Não? Então mude. Transforme-se.

Quando a saudade torna-se insuportável para ser sentida todos os dias, é porque ela está se transformando em paixão, cabe a nós transformarmos isso em amor, e este amor em relacionamento.

2 comentários:

  1. Às vezes choramos a ausência de uma imagem criada por nós.
    Depois o meu universo que é imenso...hehe
    Abraço,

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  2. Isso seria muito mais doloroso... Ao menos eu acredito que sinto a ausência de uma pessoa real, que por motivos óbvios manterei o nome no gentil sigilo do meu coração.

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